O quarto mãeversário
Nunca me senti tão exausta como agora. Seria impossível que não estivesse. Há alguns meses, eu não sei o que é dormir mais de três horas seguidas.
Tarefas simples são desafios enormes (manter-se acordada é um deles).
Depois de um dia de atividade initerrupta, chega a noite. Quando as criancas dormem, olho para o relógio e percebo que tenho um par de horas para dar conta de uma lista de 78 tarefas pendentes.
Todos os dias, coloco o meu filho menor pra dormir com a esperança de que aconteca aquele evento extraordinário em que ele dorme toda a noite. Como se uma noite de cinco ou seis horas de sono ininterruptas fossem suficientes pra zerar um cansaço acumulado de quatro anos.
Há quatro anos, meu mundo mudou. Ou poderia dizer que, há quatro anos, vivo em outro mundo.
Descortinou-se uma nova vida. Com perspectivas tão belas e lutas tão difíceis.
A vida após a maternidade é, sim, um divisor de águas.
Aquela criança chegou em meus braços com seu choro intenso. Mas, ao ouvir minha voz, parou e abriu os olhos, ao reconhecer quem eu era. A partir deste momento sutil, eu nasci de novo.
Não é só meu filho que faz aniversário, eu também sou uma mãe aniversariante.
Olhando pelo enfoque do meu mãeversário, eu apenas tenho quatro anos também... É um tempo curto para criar tantas habilidades e adquirir tantas virtudes que ainda não domino.
É uma vida de aprendizado em modo intensivo. Não há um momento de pausa, em que podemos tirar uma folguinha do título de mãe.
Há momentos de uma solidão aterradora, ao perceber que absolutamente ninguém conseguiria sequer imaginar o que preciso enfrentar diariamente. Ao mesmo tempo, há momentos de uma satisfação indescritível, ao perceber que absolutamente ninguém é capaz de imaginar o amor que sinto pelos meus filhos e a felicidade que transborda por todas as eacolhas que fiz.
Hoje, fazendo uma breve retrospectiva deste curto-longo tempo, percebo que ainda tenho muito a mudar em aspectos que pareciam estar se resolvendo. Vejo que os desafios que se impõem são cada vez maiores, em todas as partes da vida. E entre mil atividades a serem conciliadas e um relógio que só oferta 24 horas por dia, tem um bebê que só quer colo e uma criança que só quer brincar (e também quer colo) . Como conciliar tudo isso?
Esta é a pergunta que me faço todos os dias...
A primeira resposta que tem surgido em mim é a seguinte: preciso simplificar a vida.
Simplificar a agenda, os compromissos. Reduzir a vida cotidiana ao que cabe dentro da minha realidade. Simplificar até os problemas, para não perder tempo com os que não tenho condições de resolver.
É nitido que, para a criança, apenas uma coisa faz diferença: a presença. Aquela verdadeira, sem preocupação com o relógio.
Ao tentar fazer mais do que a minha capacidade permite, tudo sai errado. A impaciência e a rigidez estragam toda e qualquer iniciativa de tornar o dia mais leve e agradável. Nenhum passeio ou evento, por melhor que seja, pode compensar os efeitos desses pensamentos negativos.
Dentro da rotina monótona, previsível, estão eacondidos dias mais serenos, menos corridos. A sensação de estar correndo uma maratona de compromissos está sendo substituída pela sensação de olhar pela janela e ver as árvores.
À primeira vista, as árvores são todas iguais, mas se olhamos com mais calma, prestando atenção aos detalhes, observamos a folhagem se modificar, um pássaro diferente pousado nos seus galhos, os movimentos das folhas ao vento. Assim, vamos nos habituando a olhar com mais calma e mais interesse para a paisagem da janela.
Um dia recente foi assim: eu cozinhei. As crianças brincaram. O mais novo cochilou. Almoçamos. Descemos para o parquinho de triciclo e bicicleta. Compramos pão. Vimos o mesmo documentário de foguete pela décima vez e o de bichos na floresta pela centésima vez. As crianças jantaram e foram dormir.
Possivelmente, você terminou de ler com vontade de bocejar, mas são esses os dias que guardarão as memórias mais doces de nossas vidas.
Tudo vai se transformando a todo momento. O meu primeiro bebê está vivendo agora seu primeiro rito de passagem: ao iniciar a vida escolar, passa a ter uma parte da vida que só ele experimenta e que compartilha ocasionalmente conosco, em histórias desconexas e fora da temporalidade.
Agora, além de todas as preocupações diárias, eu ainda preciso pensar em dois lanches para a lancheira que não repitam a sobremesa servida no almoço (bendita profissão, essa minha).
Com os olhos marejados, eu vi meu filho sair com seu uniforme pela primeira vez. Com os olhos cansados, eu me despeço dele todos os dias, desejando um bom dia na escola, encantada com esse novo momento do meu pequeno rapaz.
Os primeiros quatro anos passaram com a sensação de ter vivido, na verdade, quarenta anos. Tanto aprendemos, tanto erramos. Observamos os mesmos erros acontecerem, voltamos atrás e recomeçamos. E a cada vez, com um pouco mais de acerto. E em todas as circunstâncias, tendo a certeza que a colocação interna dos pais é determinante na forma como a criança atua.
Por mais que eu tenha o costume de me cobrar muito, preciso comemorar o meu quarto mãeversario. Foram muitos aprendizados e muitos desafios vencidos e preciso reconhecê-los para caminhar adiante.
Mas há algo da mãe-de-um que nos faz parecer em falta com a mãe-de-dois. A mãe de um filho conseguia brincar, cozinhar, criar novas brincadeiras... Enquanto isso, a mãe de dois filhos vive numa constante Olimpíada do Faustão, correndo de um lado pro outro pra não ser jogada na água por um cotonete gigante.
Conflitos à parte, meus últimos quatro anos de vida foram os mais cansativos, os mais carregados de preocupações, mas também os mais felizes, os mais revolucionários, permitindo ampliar perspectivas e horizontes onde eu sequer poderia imaginar.
E é por tudo isso, meu filho, que eu agradeço pelo privilégio de ser mãe. De ser sua mãe. E que venham ainda muitos mãeversários para nós.

Parabéns para esse lindo par, que é a mãe e seu filho, tão queridos! ❤️